Há anos atrás, fui convidado pelo Prof. Dr. Nelson Thomaz Lascala, na época presidente de uma das principais associações de classe da odontologia, para atuar como colunista do site da SOBRAPE (www.sobrape.org.br). Diante do convite optei por mesclar minhas opiniões com a de colegas de reconhecido valor. O objetivo era atender a demanda da coluna ” A Odontologia no Brasil” sem impor a opinião particular. Um dos melhores textos produzidos para essa série foi de autoria de um dos maiores nomes da saúde pública e da periodontia no Brasil e no exterior. Aproveito esse blog para reproduzir e homenagear o Dr. Hamilton T. Bellini.
Autor : Hamilton Taddei Bellini *
Nos primórdios da Odontologia e da Medicina, um “bom profissional” era aquele que aliviava a dor.
Assim um “bom dentista” era habilidoso não só ao extrair um dente, mas também no trato com as pessoas ao saber confortar o sofrimento, fosse da dor ou da perda.
Séculos se passaram e ainda não se pode prescindir de tais atributos. Porém, se esses atributos eram suficientes para caracterizar um “bom profissional”, hoje com a evolução científica e tecnológica, principalmente da segunda metade deste século, estabelecer-se como um “bom profissional” tornou-se ainda mais complexo. A exigência das pessoas por qualidade de vida é cada vez maior, isto incluí aspirações de função (inclusive a estética) cada vez maiores e por mais anos - já ultrapassamos totalmente a idéia de que ” 40 anos é a idade da dentadura “.
Além do trabalho técnico da extração ( que deve ir ficando cada vez menos freqüente), existe a necessidade de :
Incorporar toda a tecnologia de
Desenvolver a análise crítica para poder selecionar adequadamente o melhor, entre a infinidade de boas e más ofertas de mercado
Incorporar o conhecimento cada vez mais apurado em ” diagnóstico”, permitindo o reconhecimento das principais patologias bucais - cáries , doenças periodontais, maloclusões e câncer bucal - em estágios cada vez mais iniciais possibilitando medidas preventivas simples e/ou tratamentos pouco invasivos.
Melhor ainda, permitindo manter o individuo em saúde ou o mais próximo dela possível. Principalmente no mundo desenvolvido, com o aumento da longevidade nas últimas décadas, foi-se sentindo de uma maneira crescente a importância de melhorar a qualidade de vida.
Isso vem se refletindo nos sistemas de saúde melhor organizados, onde a tecnologia de ponta (ao alcance de toda a população), foi-se apoiando cada vez mais numa filosofia preventiva. Essa combinação - prevenção e alta tecnologia - em culturas mais humanísticas (exemplo: Escandinávia, Holanda, Nova Zelândia, Canadá…) tem levado ao desenvolvimento crescente da “promoção de saúde”, que engloba a prevenção, mas já define uma nova etapa na evolução da Medicina e da Odontologia.
Na área odontológica o desafio primeiro esta em como incorporar na prática moderna toda a mudança em curso e seu direcionamento futuro - como fica o relacionamento com os “pacientes” neste enfoque humanístico, valorizando mais a saúde que a atenção à doença e incorporando todo o conhecimento e tecnologia em nível de diagnóstico e de recuperação e/ou manutenção da saúde bucal?
Esse enfoque implica num relacionamento educativo, logo interativo com o individuo (não mais apenas paciente) que nos procuram, para, em conjunto, trabalharmos em sua promoção de saúde. Já está mais que determinado que a grande luta pela longevidade chegou a um ponto que o objetivo está direcionado: não basta acrescentar mais anos à vida - mas sobretudo, mais vida aos anos, onde do ponto de vista do conhecimento científico já é possível “programar” dentes por toda a vida.
Seria esta a perspectiva, que deve nortear um bom profissional neste novo século. O segundo desafio, e talvez o mais difícil, é o de reverter a prática no setor de saúde, porque:
1. Esta prática, embora dita de saúde, é essencialmente de atenção à doença;
2. Exercício Médico/Odontológico está cada vez mais regido por administradores dos sistemas de seguros e convênios, que na maioria dos casos, estão apenas comprometidos com as operações financeiras de repasse/cobertura dos gastos de conveniados/segurados com atos de atenção à doença e a saúde financeira e não a das pessoas;
3. Os profissionais que seriam por formação, os compromissados com a qualidade dos serviços e com a promoção de saúde/qualidade de vida estão cada vez mais sujeitos a regras de mercado e à quantidade de atos praticados.
Avaliações por resultados - saúde bucal, qualidade de serviços - praticamente não são consideradas. Esse sistema de exercício profissional torna-se “perverso” pois : a intermediação da relação profissional/paciente cria uma desvinculação entre ambos e uma despersonalização dos serviços.
Seguros e convênios administrando o dinheiro e intermediando o repasse, não estão diretamente comprometidos com a saúde, tendendo a avaliar os serviços pela “performance” financeira da pessoa jurídica e pela quantidade dos serviços às pessoas físicas. Isso implica num pagamento o menor possível aos profissionais, a uma exigência crescente de produção como se saúde pudesse ser enfocada assim) e a criação de barreiras para que os usuários se sirvam o mínimo possível. Concluindo, de um lado o conhecimento científico atual odontológico avançou tanto que em mais de 90% das situações este já é suficiente para se atingir a meta de “dentes por toda à vida”, com qualidade ou seja, boa função : mastigação/deglutição/fonação/estética.
Do outro lado, encontra-se o sistema predominantemente perverso do exercício, que a medida que se desenvolve, torna-se mais poderoso e fora do controle dos profissionais responsáveis pela prestação direta dos serviços.
Essas duas análises definem o paradoxo atual entre as possibilidades fantásticas do campo do conhecimento para a saúde e um exercício regido por outros interesses que na medida que venham se solidificando criam um distanciamento cada vez maior dos objetivos de saúde.
Para que esse paradoxo possa ser desfeito, a iniciativa só pode partir de profissionais prestadores diretos de atendimentos, comprometidos com os ideais de saúde na qualidade de vida.
*Professor Hamilton T. Bellini é:
Pós - Graduado em Odontologia pela Universidade de Oslo, Noruega,
Ex - Professor Titular de Periodontia da PUCCAMP , além de
ter sido Secretário da Saúde do Município de Jundiaí / S.Paulo.)