24.10.06
Nobel 2006 - premiação para a pesquisa genética
Matéria publicada pela Folha de São Paulo em 03/10/06 descreve o histórico da premiação mais importante da saúde mundial - O Nobel de Medicina. “Interruptor de genes rende Nobel a dupla americana”. Os pesquisadores Andrew Fire e Craig Mello, descobriram o processo pelo qual RNA silencia os genes. O mecanismo descoberto em 1998 já se consagrou como ferramenta de pesquisa e deve resultar em aplicação terapêutica em poucos anos. Os vencedores do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2006 são dois americanos que descobriram um mecanismo fundamental para a compreensão de como os genes são ligados e desligados nas células. Andrew Fire, 47, e Craig Mello, 45, trabalhavam juntos no Instituto Carnegie, de Washington, quando publicaram em 1998 o estudo que lhes rendeu a premiação, ontem. O tempo entre a descoberta e a premiação foi um dos menores já registrados na história do Nobel.
Fire e Mello descobriram que moléculas de RNA (uma espécie de auxiliar do DNA) podem “silenciar” genes e impedi-los de produzir proteÃnas, as moléculas responsáveis por colocar o organismo em funcionamento. O mecanismo descrito pelos cientistas, batizado como RNA de interferência (RNAi), é hoje uma ferramenta de pesquisa fundamental para geneticistas e deve em breve se tornar uma aplicação médica.
Como o processo descoberto por Mello e Fire é capaz de bloquear a produção de certas proteÃnas, ele acabou se tornando a ferramenta ideal para investigar o papel delas no organismo. Ao injetar o RNAi em animais de laboratório ou células em cultura, basta ver as conseqüências para descobrir a falta que o gene-alvo faz.
O efeito pode ser aproveitado também para desativar genes que exercem atividade indesejada em certas situações, como em células de câncer que insistem em se proliferar. Ainda não existe nenhum tratamento disponÃvel baseado em RNAi, mas já há um teste clÃnico em andamento para tratar degeneração macular, um problema médico que leva a cegueira. Doenças infecciosas, como a Aids, também estão na mira dos cientistas.
Surpresa fora de hora
Os dois vencedores do prêmio deste ano foram tirados da cama ontem de madrugada por telefonemas do Instituto Karolinska, da Suécia, a fundação que administra o Nobel. Mello recebeu a ligação quando estava dormindo. “Minha mulher disse: “É um trote, não atenda’” contou o cientista em entrevista. “Eu disse a ela que estavam anunciando o Prêmio Nobel e era melhor eu atender.”
Tanto Mello quanto Fire disseram que esperavam mesmo ganhar o prêmio algum dia, mas não tão cedo. “Eu desconfiava que isso seria possÃvel, mas eu tenho apenas 45 anos, então achava que aconteceria apenas em dez ou vinte anos”, disse Mello. “É incrÃvel. Ainda não caiu a ficha.”
A dupla de pesquisadores vai dividir agora em partes iguais o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (R$ 2,9 milhões). Mello já disse que pretende doar parte do dinheiro a instituições de caridade, mas Fire afirma não ter ainda a “menor idéia” de o que fazer com o dinheiro.
Os ganhadores do prêmio de medicina deste ano tiveram histórias acadêmicas diferentes antes de se unirem no Instituto Carnegie, e já não trabalham mais juntos. Hoje, Fire leciona patologia e genética na Escola Médica de Stanford, na Califórnia, e Mello é professor de medicina molecular no Instituto Médico Howard Hughes, em Boston. Enquanto Fire teve uma carreira cientÃfica meteórica começando com uma graduação em matemática, Mello começou a trabalhar em biomedicina desde cedo.
Além do prêmio Nobel, os dois compartilham a primeira patente sobre o uso de RNA para silenciar genes. Desde 2003, diversas gigantes da área bioquÃmica e farmacêutica, como Novartis, Pfizer, GlaxoSmithKline e Monsanto, já pagam royalties pelo uso da técnica.
Apesar de o reconhecimento a Mello e Fire ter chegado rápido, pesquisadores brasileiros que já trabalham com RNAi consideraram o prêmio justo. “O que eles fizeram modifica a forma com que vÃamos como a regulação da expressão de genes funciona”, diz o geneticista Carlos Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. “Existe um mundo de RNA dentro da célula que a gente não conhecia, e é uma ponta de um iceberg, que estamos começando a entender.”
Segundo Iscia Lopes-Cendes, pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, o RNAi “já está no dia-a-dia de cientistas do mundo inteiro”. “É uma técnica [de silenciamento de genes] versátil, potente, especÃfica e não é excessivamente cara.”
O anúncio do prêmio para medicina ontem foi o primeiro da série cientÃfica do Nobel de 2006. Amanhã serão divulgados os nomes dos ganhadores em FÃsica, e, na quarta-feira, em QuÃmica.
Nobel de 93 prevê aplicação prática em 5 anos
A interferência de RNA é “um dos avanços mais empolgantes da biologia celular nas últimas décadas” e está “a quatro ou cinco anos” de ganhar aplicações terapêuticas em seres humanos. As opiniões são de Philip Sharp, diretor do Instituto McGovern de Pesquisa do Cérebro do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos EUA.
Sharp tem motivos para o ânimo -e o orgulho. Afinal, foi ele que em 1983 aceitou orientar o doutorado de um jovem de 19 anos chamado Andrew Fire, que acabara de concluir sua graduação em matemática mas que queria mesmo era ser biólogo. “Ele sempre foi brilhante”, diz o ex-professor.
Phil Sharp, como é conhecido no MIT, tampouco é um cientista qualquer. Em 1993 ele dividiu o Nobel de Medicina com Richard Roberts por ter mostrado que um mesmo gene pode ter várias “edições” diferentes numa molécula de RNA, mecanismo batizado de “splicing”. Seu trabalho com o RNA inspirou Fire a investigar a molécula-irmã do DNA.
Mas hoje é o mestre quem segue a linha de pesquisa do ex-aluno. “Quando o artigo de Andy [Fire] e Craig [Mello] foi publicado, em 1998, entendi que se tratava de algo com um potencial extraordinário e que nós deverÃamos investir nisso”, contou Sharp à Folha.
“Você tem tanto uma revolução teórica, que é o reconhecimento do papel desses micro-RNAs na célula, quanto uma janela para aplicações clÃnicas em humanos. Não é à toa que o Prêmio Nobel para eles veio somente oito anos depois da descoberta”, afirmou.
NanopartÃculas
O grupo de Sharp se uniu a engenheiros do MIT e hoje tenta desenvolver uma terapia contra glioblastoma (um tipo de câncer de cérebro) que use micro-RNAs dentro de nanopartÃculas para interferir na expressão de genes cujo mau funcionamento causa o tumor.
“Hoje nós podemos imaginar toda doença como o produto da ação de algum gene. Há, por exemplo, genes especÃficos no vÃrus da gripe que podemos desligar e impedir a gripe, e assim por diante”, disse o Nobel.
Sharp tem outros motivos mais pragmáticos para apostar no sucesso terapêutico da interferência de RNA: em Cambridge, Massachusetts, onde fica o MIT e um dos principais pólos da indústria biotecnológica americana, há várias empresas investindo pesado em terapias baseadas na nova ferramenta -e o pesquisador está associado a uma delas, uma prática comum nos EUA.
“Já há inclusive testes clÃnicos preliminares em humanos. A coisa está se tornando real. Mas uma aplicação clÃnica ainda está a quatro ou cinco anos, no mÃnimo”, avisa.
Professor verme
Sharp não é o primeiro Prêmio Nobel com quem Andrew Fire se associou em sua carreira. Após concluir seu doutorado no MIT, aos 23 (!) anos, o americano foi trabalhar na Inglaterra com um dos fundadores da biologia molecular, o sul-africano Sydney Brenner.
Brenner ganharia o Nobel de Medicina de 2002 por suas pesquisas com o verme Caenorhabditis elegans como animal-modelo na biologia. Foi ele quem apresentou o verme a Fire, que passou a investigar como a expressão de genes é regulada no pequeno organismo. O trabalho resultaria no artigo de 98 em parceria com Mello.
criado por Rodrigo G. Bueno de Moraes
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Comentário por oscar — 24.10.06 @ 14:23:28
Exelente trabalho, dágosto comentar uma trabalho coom o nÃvel de importancia e o nivel de interesse como o que ele está apresentado, fico imensamente felizm, porque infelizmente o que temos na maioria dos casos são trabalhos sem conteudo e com muito pouco interesse em algumas áreas, e ainda os que perdem tempo com aboradagens de assuntos e aspoectos que caem na gozação na iniquidade e na falta de objetividade. Por isso fico muito satisfeito em poder ser util se é que isso seja possivel para poder salientar a qualidade do trabalho. Com certeza merce nossa melhor atenção e o enfoque ressaltando que felizmente ainda há pessoas que não estão interessadas em perder o tempo, Não desejo ser pretencioso mas acho graça em alguns trabalhos com anedotas e tudo mais, mas fico uito mais contente ao ver um trabalho como este. Parabéns E fica o convite para que visitem nosso blog, Quem somos nós ? Utopia, e vários outros onde colocamos assuntos que se referem aos aspectos naliticos das questões, sem perder tempo com osso anedotário que no caso brasileiro é grande como sabemos. Mais uma vez obrigado e parabens